Entrevista com Dr. Gray Portela

Diagnóstico precoce: essa ainda parece ser a maior arma na luta contra o câncer. Quem aponta para essa afirmativa é o médico e diretor do Centro de Oncologia Dr. Giuseppe Muccini, Gray Portela. Para o especialista, a alta incidência da doença não se remete apenas aos fatores genéticos mas, sobretudo, ao fator industrialização. “Muitas pessoas perguntam se há epidemia do câncer em Petrolina, se tem mais aqui do que em outras regiões, mas não. É uma doença que tem aumentado em qualquer área que tem apontado uma crescente na industrialização. É como se fosse um malefício do progresso”. No bate papo abaixo, o oncologista fala quais são os tipos de câncer mais comuns na região e quais as posturas que devem ser adotadas para quem quer ter mais qualidade de vida.

Quais os tipos de câncer mais freqüentes na região?

Dr. Gray Portela – Os mais freqüentes são o câncer de mama e de próstata, lembrando que o câncer é uma doença que está aumentando progressivamente a sua incidência como um todo, não só na região, mas no país como um todo. Para se ter idéia, 60% dos cânceres do Brasil são na região Sul e Sudeste, porque o câncer é uma doença intrinsecamente relacionada com a industrialização. Muitas pessoas perguntam se há epidemia do câncer em Petrolina, se tem mais aqui do que em outras regiões, mas não. É uma doença que tem aumentado em qualquer área que tem apontado uma crescente na industrialização. É como se fosse um malefício do progresso e quando a gente pára para ver a incidência da doença no NE ainda é muito pequena, com relação ao Sul/Sudeste. E quando a gente observa os casos aqui no NE, vê que a incidência é maior nos estados mais industrializados: Bahia, Pernambuco e Ceará.

Que fatores podem ser preponderantes para essa incidência do câncer?

Dr. Gray Portela – O câncer tem dois fatores importantíssimos: o fator genético, alterações genéticas são fundamentais para a ocorrência do câncer, tanto é que explica que algumas famílias têm mais tendência. Mas há outro fator de muita importância , que é o ambiental. Exemplos: um dos agentes causadores: tabagismo, para cancer de pulmão, fígado, esôfago, cabeça, pescoço e bexiga. Outro fator: a radiação solar, câncer de pele. Outro fator ambiental: a alimentação. O sobrepeso tem mais indicação ao câncer, alimentação pobre em vegetais. Até fatores virais, como o HPV, que causa o câncer de colo do útero, se adquire de forma sexual.

A melhor maneira então de evitar a doença seria a realização dos preventivos e procurar ter uma melhor qualidade de vida?

Dr. Gray Portela – O aumento da sobrevida do câncer, entre outras coisas, nos últimos anos, não se deve tanto a armas terapêuticas, os pacientes vivem mais não porque têm mais remédios, mas porque tem o diagnóstico precoce, conseguido com exames de rastreamento feitos no tempo certo. Além disso tem que tentar uma vida o mais saudável possível, principalmente porque a gente já sabe quais são os fatores ambientais que podem ser controlados.

O Ceonco tem tido avanços consideráveis nos últimos anos, seja através de equipamentos, aquisição de novos profissionais, estabelecimento de parcerias. São ações que apontam para novas conquistas?

Dr. Gray Portela – O Ceonco funciona há aproximadamente dez anos, junto com o MCC (Movimento de Combate ao Câncer) e uma das coisas mais importantes nos últimos anos foi a nossa tentativa de diversificar os serviços na área de oncologia. Nós temos agora uma equipe multiprofissional, serviço de humanização e algumas especialidades oncológicas: clínica, cirurgia, pediátrica, hematologia e o serviço de cuidados com os pacientes com a doença avançada.

A oncologia pediátrica representa uma das grandes conquistas para a região…

Dr. Gray Portela – Com certeza. A grande maioria dos pacientes antes tinha que se deslocar para outros lugares para fazer o tratamento. Imagine isso para crianças, é mais complicado. Então, foi uma grande vitória para a região.

O Centro de Oncologia desenvolve uma parceria com a Universidade Federal do Vale do São Francisco, no que diz respeito à pesquisa e o intercâmbio entre a academia e a prática. O que se pode esperar para o futuro?

Dr. Gray Portela – Nós fizemos uma parceria com a Univasf com os cursos de Psicologia, Enfermagem e Medicina, como campo de prática desses cursos e estaremos abrindo o Centro de Pesquisa em Oncologia da APAMI. Esse centro será responsável pelas pesquisas inéditas ao câncer em nossa região.

O Ceonco conta com um grupo de humanização. De que forma estes profissionais auxiliam no andamento do tratamento dos pacientes?

Dr. Gray Portela – Nosso objetivo é o acolhimento do paciente. Nós fizemos um diagnóstico inicial da qualidade de nossos serviços e colocamos metas que a gente teria que alcançar como um todo. Na humanização ouvimos desde o paciente, passando pelos enfermeiros, pelos psicólogos, médicos, fisioterapeutas, passando pelo pessoal técnico e com isso a gente tende a progressivamente melhorar a qualidade de nosso atendimento.

Receber um diagnóstico de câncer não deve ser fácil de ser absorvido por um paciente. Que tipo de orientação pode ser repassada para os pacientes, familiares, como devem reagir diante do diagnóstico e a postura que deve ser adotada?

Dr. Gray Portela – A grande maioria dos casos a gente entende o câncer como uma doença não só da pessoa, mas da família. Toda a estrutura fica ‘doente’. A gemte preza por uma postura otimista e fraterna, ou seja, a gente explica todas as fases do tratamento, e a gente conversa com os pacientes qual o objetivo desse tratamento. Paralelamente entra o grupo de humanização para ver a estrutura familiar e no que ela pode ajudar.

Dr. Gray Portela