Câncer Infantil

Câncer, uma doença comum em adultos, é rara na infância e adolescência. Menos de 1% de todas as neoplasias acometem pacientes pediátricos e somente um caso de câncer é diagnosticado anualmente entre 10.000 crianças de 0 a 15 anos de idade. Apesar da raridade, o câncer infantil é a principal causa de mortalidade relacionada à doença na infância nos países desenvolvidos e vem apresentando aumento na incidência com um aumento aproximado de 1% ao ano para todos os tipos de câncer, já para alguns tumores específicos, como tumores de Sistema Nervoso Central, há um aumento de 2% ao ano.

O câncer infantil deve ser estudado separadamente do câncer do adulto, pois apresenta diferentes locais primários de acometimento, origens histológicas e comportamentos clínicos além de um menor período de latência (crescimento rápido / invasivo), respondendo na maioria dos casos melhor a quimioterapia.

Apesar de muitos anos de investigação epidemiológica, a causa do câncer infantil continua largamente desconhecida, mas observa-se que algumas crianças apresentam um risco aumentado. Estas podem apresentar predisposição genética, exposição prévia a certos agentes infecciosos, quimioterápicos ou a radiação ionizante.

As síndromes hereditárias são as únicas causas já bem estabelecidas, mas responde pela minoria dos casos observados de câncer infantil.

A infecção pelo vírus Epstein Barr tem associação com linfomas de células B, principalmente linfoma de Burkitt e menos comumente a linfomas periféricos de células T, linfoma de Hodgkin e carcinoma de nasofaringe. A infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV) em crianças tem sido associada a várias malignidades como linfoma de celulas B, leiomiossarcomas e sarcoma de Kaposi (os últimos dois raros em crianças). As infecções pelos vírus das hepatites B ou C predispõem ao carcinoma hepatocelular.

Crianças tratadas para Leucemia Linfóide Aguda (LLA) têm maiores risco de desenvolver tumores cerebrais, especialmente aquelas que receberam radioterapia de crânio e que têm deficiência da enzima tiopurina metiltransferase. Sobreviventes de LLA também estão em maior risco para desenvolver leucemia mielóide aguda (LMA). Terapia com certos quimioterápicos como inibidores da topoisomerase II, antracíclicos e agentes alquilantes potencializam esse risco, também para os pacientes com tumores sólidos tratados intensamente com estes agentes. Assim também, pacientes pós transplante de medula óssea têm aumento na incidência para tumores sólidos como de pele, ósseo e câncer de tireóide associado a radioterapia de corpo inteiro e desordens linfoproliferativas pós-transplante associado a imunodepressão.

Vários estudos continuam avaliando a complexidade de outros possíveis fatores de risco para o câncer infantil. Estes incluem: exposição dos pais, do feto ou da criança a toxinas ambientais (inseticidas/pesticidas); exposição ocupacional dos pais a radiação ou drogas; condições médicas dos pais durante a gravidez ou antes da concepção; dieta materna durante a gravidez; padrão de alimentação da criança logo após o nascimento; história reprodutiva materna; moradia próxima a campos eletromagnéticos, postos petroquímicos ou exposição a água contaminada.

Em Petrolina desde janeiro de 2011 iniciou-se no Centro de Oncologia Dr Muccini/ APAMI o serviço de oncologia pediátrica. Desde então até a presente data (novembro/11) foram atendidos no serviço 50 crianças e adolescentes com diagnóstico de câncer infantil, destes, 29 pacientes continuam em acompanhamento / tratamento no serviço, 19 pacientes foram transferidos para serviços de referência em Recife ou Salvador devido a complexidade de cada caso e 2 pacientes foram a óbito (um paciente de 4 anos com melanoma metastático em cuidados paliativos e um paciente de 14 anos com leucemia linfóide aguda, hiperleucocitose e massa de mediastino que evoluiu para síndrome de lise tumoral e insuficiência renal aguda). Os pacientes em acompanhamento no serviço têm as seguintes características: idade à admissão variando de 2 dias de vida a 18 anos, sendo 11 crianças menores de 10 anos de idade e 18 acima de 10 anos de idade (média de idade 11 anos). Os principais diagnósticos foram: 5 tumores renais (4 Tumores de Wilms e 1 nefroma mesoblástico), 4 Linfomas de Hodgkin, 4 Sarcomas/ tumores de partes moles, 3 Linfomas não Hodgkin, 3 Tumores de Sistema Nervoso Central (Tumor de tronco, ependimoma de cauda eqüina e meduloblastoma), 2 Leucemia (Leucemia mielóide crônica e Leucemia mielomonocítca juvenil), 2 tumores ovarianos, 1 histiocitose e 1 neuroblastoma. Três pacientes (2 com neurofibromatose e 1 paciente com Doença de Castleman) fazem acompanhamento no serviço pela predisposição ao câncer. Dos pacientes transferidos para outros serviços, 8 casos (42%) foram suspeitas de leucemia principalmente linfóide aguda devido principalmente a ausência na ocasião de exames complementares fundamentais para o diagnóstico (imunofenotipagem e biologia molecular). O serviço no momento está estabelecendo convênios com laboratórios para num futuro próximo iniciarmos também o tratamento das crianças portadoras de leucemias agudas que corresponde a principal causa de câncer na infância.

Lídia NevesOncologista pediátrica